Chrysostomos P. Panayiotopoulos, 1938-2020


Postado por Dr. Luís Otávio Caboclo

No mês de junho passado morreu em Londres o Professor Chrysostomos P. Panayiotopoulos – ou “Tomis”, como ele gostava de ser chamado por todos. Panayiotopoulos ficou mais conhecido por descrever a síndrome que hoje leva seu nome, mas suas contribuições à epileptologia, neurologia e neurofisiologia clínica foram muito além disso.

Autor de vários livros sobre epilepsia e de inúmeros artigos científicos na área, sua maior especialidade foram as epilepsias que afetam as crianças. Panayiotopoulos nasceu na Grécia em 1938, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando seu país sofreu a ameaça da invasão nazista, seguida de uma cruel guerra civil. Depois de concluir a faculdade de medicina em Atenas, mudou-se para Birmingham, cidade situada nas midlands da Grã-Bretanha, para fazer seu treinamento em neurologia sob a supervisão do neurologista e epileptologista Peter Jeavons, também um estudioso renomado da epilepsia, que dá nome a uma síndrome epiléptica caracterizada por crises de ausência acompanhadas de mioclonias palpebrais e marcada fotossensibilidade.

Durante seu treinamento em Birmingham, Panayiotopoulos dedicou-se ao estudo de crianças que apresentavam crises epilépticas com características particulares. Ao longo de mais de 30 anos, observando as crises de diversas crianças inglesas e das crianças que ele havia acompanhado ainda em Atenas, ele descreveu um tipo de epilepsia muito comum nessa faixa etária, com características típicas e prognóstico muito favorável, que depois veio a ser denominada, em sua homenagem, Síndrome de Panayiotopoulos.

Todos nós, neurologistas e neuropediatras que trabalhamos com epilepsia, conhecemos a síndrome descrita por ele. Mas ele não se limitou a estudar a síndrome que leva seu nome. Alguns dos melhores livros-texto de epilepsia são de sua autoria. Escritos integralmente, não simplesmente editados por ele, com a participação de outros autores. Ele também editou alguns livros, dentre eles um abrangente Atlas de Epilepsia.
Em 2008, tive o raro privilégio de conhecer o Professor Panayiotopoulos – mais do que isso, de passar uma tarde com ele em seu escritório no Hospital St. Thomas, em Londres. Nessa época, minha professora e chefe na UNIFESP – Dra. Elza Marcia Yacubian – estava ajudando a organizar um curso de epilepsia que ocorreria no ano seguinte, em São Paulo. O tema do curso seria “epilepsia em crianças” e, sabendo que eu iria a Londres, ela me pediu para desempenhar uma tarefa que, de antemão, eu já sabia que seria muito difícil: convidar Panayiotopoulos para participar no curso. Ele nunca era visto dando aulas em quaisquer congressos, por motivos que ninguém sabia explicar ao certo.

O Professor Sanjay Sisodiya, da University College London, que havia sido meu supervisor durante minha estada em Londres um ano antes, me apresentou, por e-mail, a Panayiotopoulos. Curiosamente, Sisodiya – seu colaborador frequente e coeditor do Atlas de Epilepsia – tinha encontrado Panayiotopoulos apenas uma vez, muitos anos antes.
Eu encontrei Panayiotopoulos na recepção do St. Thomas. Ele me recebeu de forma muito amistosa e, depois de me conduzir por um tour pelo hospital, incluindo a calçada lateral, em frente ao Parlamento Britânico – onde ele fez uma pequena parada para fumar um cigarro – fomos ao seu escritório no Departamento de Neurofisiologia Clínica do hospital, onde conversamos pelas horas seguintes.

Em minha conversa com Panayiotopoulos, pude ouvir dele a descrição da síndrome epiléptica que leva seu nome. Trata-se de uma síndrome bastante comum na infância, embora muitas vezes não diagnosticada. As crises na Síndrome de Panayiotopoulos costumam ser muito prolongadas, podendo durar até mais de meia hora e, apesar de algumas crises apresentarem elementos dramáticos, a evolução da síndrome é muito benigna. A maioria das crianças têm apenas uma crise ou, quando as crises recorrem, habitualmente perfazem um total de no máximo cinco crises. Da mesma forma, a evolução cognitiva também é muito positiva: as crianças com Síndrome de Panayiotopoulos crescem para se tornar adultos de inteligência normal, com vidas produtivas do ponto de vista profissional e pessoal. Através da descrição da síndrome e do reconhecimento de suas características benignas e prognóstico favorável, Panayiotopoulos poupou incontáveis crianças de uma vida de tratamento desnecessário e estigma associado à epilepsia.

Quando Panayiotopoulos descreveu a síndrome, baseando-se nas crianças que ele acompanhou na Grécia e no Reino Unido, ele reportou muitas das descrições feitas pelas mães das crianças com essa forma de epilepsia. Algumas dessas descrições me chamaram a atenção quando eu li o trabalho original:

Ele se queixou de náuseas e ficou pálido. Cinco minutos depois ele vomitou, enquanto ainda estava de pé… Gradualmente ele ficou desorientado, mas ainda conseguia andar. Porém, 10 minutos depois os olhos dele viraram para a direita e ele parou de responder.

E também:

Ela se queixou de “tontura” e então seus olhos viraram para esquerda, ela caiu no chão e ficou totalmente flácida por cinco minutos.

Ou ainda:

Pensei que fosse perder o meu filho.

Qualquer um que já tenha atendido crianças com a Síndrome de Panayiotopoulos certamente fica impressionado com a semelhança na descrição. Impressiona também a sensibilidade de Panayiotopoulos ao registrar a percepção de mães que, não importando se vivem em Atenas, Birmingham ou em qualquer cidade do Brasil ou do mundo, compartilham a mesma ansiedade e os mesmos medos quando testemunham uma crise epiléptica em seus filhos e filhas.

Em nossa conversa Panayiotopoulos não se limitou a falar sobre os aspectos médicos da epilepsia. Ele se mostrou muito curioso sobre a situação da pesquisa médica no Brasil, particularmente na área de epilepsia. Ele se disse muito entusiasmado e confiante com a possibilidade de países em desenvolvimento – como Brasil, Turquia, Grécia e Índia – desenvolverem pesquisas relevantes nessa área. Isso, apesar de todas as dificuldades impostas pelas limitações materiais nesses países.

Ele me perguntou sobre vários epileptologistas brasileiros. Conhecia quase todos que eu citei, sendo capaz de citar vários trabalhos realizados por esses colegas. Em sua opinião, a pesquisa realizada nos países em desenvolvimento era alvo do preconceito da comunidade científica dos países mais desenvolvidos. Como revisor e editor de várias das principais revistas científicas de neurologia, ele havia sido testemunha de que vários estudos submetidos a essa revista eram sumariamente rejeitados, sem qualquer revisão, simplesmente por terem sido feitos no Brasil, ou na Turquia, ou na Grécia. Perguntei a ele como nós, brasileiros, poderíamos suplantar essa barreira, como poderíamos conseguir que nossos trabalhos fossem reconhecidos e aceitos nas revistas mais importantes. Ele pensou um pouco e respondeu: “Não desistam. Continuem tentando.”

Antes de deixar o hospital, fiz o convite para o congresso. Como esperado, ele não aceitou. Explicou que muitos anos antes tinha decidido não participar mais em congressos – por motivos um tanto inusitados, que incluíam sua dificuldade em se expressar em inglês! (Naturalmente não havia nada de errado com a forma com que ele falava inglês, além de um charmoso sotaque grego).

Em 2012, pela primeira vez em décadas, Panayiotopoulos aceitou um convite para um congresso. No Congresso Europeu de Epilepsia, em Londres, Panayiotopoulos proferiu uma palestra em uma sessão em sua homenagem, em que recebeu um prêmio entregue pela Liga Internacional contra a Epilepsia. Na plateia, além de vários colegas, ex-alunos e admiradores, estava sua esposa Thalia, a quem Panayiotopoulos sempre dedicou todos os seus livros e a quem também dedicou o prêmio recebido.

Panayiotopoulos foi e continuará sendo um exemplo para neurologistas, epileptologistas e neurofisiologistas clínicos de todo o mundo, em especial dos países que, como sua Grécia natal, muitas vezes carecem dos recursos necessários para a melhor atenção aos pacientes e para a realização de pesquisas relevantes nessa área. Mas, que por ocasião desse momento e dessa homenagem, fiquemos com a lembrança de seu conselho: continuemos tentando.